| João Francisco Lima Filho |
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Décimo primeiro e último filho de uma família típica de Salvador, Bahia, onde nasceu e tem, até hoje, suas raízes, familiares e religiosas, João Francisco traz em sua certidão de nascimento a data de 16 de janeiro de 1954. (“Nasci talvez nesse ano, talvez bem antes, porque naquela época, na Bahia, muitas vezes os pais não registravam os bebês no momento do nascimento, deixavam pra um ano, dois, quatro anos depois”, confessa João Francisco). De origem bastante humilde, João Francisco nunca deixou de acreditar em sua caminhada e tinha certo que ia vencer, e enfrentar tudo, tudo, sempre. Estudou, lutou, calejou as mãos, não recusava emprego, “desde que honesto” (lembra orgulhoso). Depois, tornou-se um bailarino, cursando balé clássico e folclórico e ainda participou de dois filmes – “Capitães de Areia” e “O Cangaceiro”, antes de se entregar totalmente ao seu destino de autoridade religiosa. O Candomblé, religião de origem africana tão marcante na vida dos brasileiros nascidos na Bahia, sempre fascinou o jovem João Francisco, mas sua aproximação dos terreiros aconteceu por problemas de saúde. “Eu tinha feridas por todo o corpo, tinha que dormir sobre folhas de bananeira”, lembra Pai Francisco. “OS NAGÔ TEM QUE RESOLVER” Uma irmã do pequeno João Francisco, não suportando mais ver o sofrimento do menino, recorreu a Dona Neném, que recebia o Caboclo Jaguaracy e se dispôs a “aliviar as dores e fechar as feridas do garoto”. Mas, Dona Neném advertiu: “o problema é religioso; os nagô é que tem que resolver”. Os trabalhos do caboclo realmente fizeram bem, as feridas cicatrizaram. Mas o recado nunca saiu da cabeça do jovem, que, afinal sentia muita atração misturada a medo, ao freqüentar terreiros de Candomblé naquela cidade repleta destes locais sagrados. João Francisco, quase sempre, estava na casa de dona Isaura, uma vizinha, e via pessoas incorporadas, sempre com um misto de fascínio e pavor. E dona Isaura olhava fundo nos olhos de Francisco e afirmava: “temos que tratar do santo desse menino”. Até que um dia, o menino foi levado ao terreiro que dona Isaura freqüentava, do senhor Antonio Inácio Mangaroeira, no Alto da Santa Cruz. Ela era madrinha, uma pessoa especial e referencial para João Francisco, que, conforme o esperado bolou (incorporou o Orisa) no terreiro de Mangaroeira. Pai Francisco lembra-se de todos os detalhes: do terreiro, da casa que ficava de frente para o Quartel de Amaralina, na Rua Pereira de Oliveira, 6, nas margens de uma bela lagoa, reservatório natural de água que acabou aterrado pelo chamado “progresso”, anos depois. João Francisco lembra do medo que sentiu, dos olhos arregalados e do fascínio com que escutou: “ele é da Osun, com certeza”. E dali foi para outros terreiros e ouviu outros nomes de Orisás, ouviu Iansã, Ogum, Osun com Iansã... E uma revelação calou fundo: “Ele tem um egun (um espírito, um desencarnado) de um homem de Sango”. As irmãs mais velhas (que o criavam desde os cinco anos, depois que a mãe faleceu) confirmaram: o pai – João Francisco Lima -, de quem João Francisco herdou o nome e a linhagem do candomblé, suicidou-se quando João era um bebê de três meses, tendo guardado um segredo enquanto viveu: cuidava dos Orisás, mas longe da família, numa cidade do interior e era filho de Sango. Um Sango que, anos mais tarde, João Francisco, já feito no Santo, recuperou o assentamento e cuida com devoção e carinho até hoje. João começava a descobrir e a trilhar seu verdadeiro destino: essa dedicação sacerdotal a Osun, a dona de sua cabeça, de seu corpo, de seu coração e da alma. Dedicação extensiva aos seus outros Orisás – Iansã e Ogum, além de Sango, o dono da cumeeira de seu Ilê, o dono de sua ousadia e de sua coragem. E João Francisco Lima Filho, hoje Babalorisá respeitado em todo o País e até no Exterior, dedica-se ainda com sabedoria, humildade e extremo amor, ao grande Pai Osalá, e a todos os outros Orisás, cuidando ainda de seus filhos de Santo, milhares de clientes, e da comunidade onde há 30 anos instalou seu Ilê, em São Paulo, sem nunca esquecer suas raízes baianas, onde mantém outro terreiro e realiza festas e cultos. OSUN, EM BUSCA DE FRANCISCO. Voltando no mágico túnel do tempo e seguindo nossa história, é certo afirmar que o jovem João Francisco não imaginava toda essa trajetória vitoriosa quando foi morar na casa de seu Antonio Mangaroeira, onde ficou por 9 anos, sendo cuidado por dona Dininha, uma das mulheres de seu Antonio. Muitos ebós foram feitos no jovem; Osun sempre bolava (incorporava), mas João não era recolhido e o Orisá não era feito. João Francisco vivia normalmente, dançava e trabalhava no jornal, e trabalhava muito na Casa de Mangaroeira. Um jovem “boa praça”, que mantinha uma ótima convivência com Jorge, filho de Mangaroeira e dona Dininha; Neide e Jamile, filhas somente desta; e Bira, filho de Antonio com outra mulher. João ainda participava de festas em homenagem aos Orisás e sentia-se cada dia mais atraído pelo Candomblé. De 17 para 18 anos, o rapaz sentia uma enorme aflição em seu coração. Um chamamento. Juntou dinheiro para fazer o Santo, com seu Antonio Mangaroeira. Um dia João Francisco cobrou a feitura e a reação foi brutal, uma briga, onde Mangaroeira concluiu: “Essa gente de Osun é tudo falsa”, ofendendo o jovem Francisco. Uma briga presenciada por Dona Alzira de Iansã, senhora que morava no Rio de Janeiro e passava férias no local. Dona Alzira revelou a verdade ao rapaz que já amava tanto Osun: “Antonio Mangaroeira não é iniciado e tem medo de colocar a mão em sua cabeça. Quem era do santo era a avó dele, Joaquina Coleta Mangaroeira; ela faleceu e ele ficou tomando conta do terreiro. Ele é uma sumidade no feitiço; mas esse neto de dona Joaquina não um Babalorisá capaz de iniciar você, e nem de lidar com essa Osun”, concluiu Dona Alzira, que resolveu levar João Francisco para Dona Meruca. UM GRANDE SACERDOTE; ESTAVA ESCRITO. Dona Meruca jogou os búzios e começou a revelar os fios da meada do destino de Francisco: Osun e Iansã estavam brigando pela cabeça do rapaz. Também era forte a presença do Sango do Pai carnal do rapaz, e, com certeza, garantiu Mãe Meruca, o jovem Francisco, “um dia terá um cargo sacerdotal, um grande futuro na religião”. E concluiu: “a raspagem tem que ser feita urgente, antes vamos fazer um ebó de Egun, um ebó Branco e ainda um sacudimento para Exu”. A casa de Candomblé de dona Meruca era em Campinas de Brotas, local que dividia com seu pai carnal, Senhor Manoel de Neive Branco (nome alusivo ao caboclo que se manifestava nele: Caboclo Neive Branco). Mas Dona Meruca, filha de Manoel com Dona Lulu de Osun, jogava búzios em outro local: no apartamento da Rua da Imperatriz, 119, na Baixa do Bonfim. Ali, também promovia sessões de caboclo e fazia ebós. João Francisco tem as cenas vivas em sua memória, cada palavra, cada emoção. Recorda-se de tudo que lhe falou Dona Meruca; as palavras dela, os nomes dos Orisás, tudo, tudo ecoa em sua memória até hoje. Osun, Osun, Osun, essa deusa, essa razão da vida de Francisco. As palavras de Dona Meruca misturadas ao forte chamamento vibravam dentro do jovem Francisco, que foi saindo do apartamento de Dona Meruca rumo ao ponto de ônibus, e aquela tontura e o desfalecimento. Foi socorrido e levado de volta. Era Esu. Esu foi claro e firme: “tem que fazer o Santo, mas, prestem atenção, eu não quero assentamento. Tenho muita coisa para dar para ele, mas solto”. Dona Meruca desvirou João Francisco e lhe deu um banho, um banho que também não sai da memória do Babalorisá até os dias de hoje: “eu fui pegar o ônibus novamente e, quando entrei, todo mundo se afastava de mim, de tanto que eu fedia”, ri escancarado.
Mas João não era o único; foi formado um grande barco, com filhos de Mãe Meruca e também da Casa de Pai Manoel de Neive Branco. Francisco era o Dofono (primeiro) do barco, onde também estavam Teresinha de Osun; Araci de Oyá; Das Dores de Obaluaiê; Alzidéia de Osun; Alvinho de Osun (com sete anos de idade), todos filhos de Meruca; e também Adélia de Iansã, Luzia de Osun; e Geralda de Oxalufã. REIS E RAINHAS AOS PÉS DE FRANCISCO Foram longos meses – três para fazer o Orisá, cuja data oficial de nascimento foi 18 de setembro de 1974; e três outros meses de resguardo. E Mãe Meruca, vislumbrando o futuro de João Francisco de Osun, previa: “meu filho, Reis e Rainhas vão beijar sua mão; políticos, empresários, todos se curvarão a esta Osun”. E João Francisco foi o único do barco que “vingou” e fez e faz história até hoje. Três anos e meio depois da feitura, João Francisco partiu para São Paulo, sendo abrigado na grande cidade pelo amigo Dr. Michel Jean Loeb, de Oxalufã, Oloiê de Oxossi, do Terreiro de Mãe Estela, do Asé Opô Afonjá. Mãe Meruca também viria se instalar em São Paulo, depois de apresentada ao Dr.Michel por Francisco de Osun, que não esquece toda força que o amigo deu para ele e para sua Mãe de Santo. Francisco não queria abusar, resolveu se instalar numa pensão e arrumou uma vaga na Rua da Gloria, 555. Manoel e sua esposa Kátia eram os donos. No quarto do jovem eram seis beliches, e a cidade se apresentava com um mundo desconhecido, imenso, que às vezes causava medo. Mas Francisco de Osun, determinado e forte desde sempre, estava disposto a se firmar em São Paulo. Não esquecia as previsões de Mãe Meruca e sabia que Osun o levaria muito, muito longe. Ainda abrigado na pensão, alimentava-se na casa do amigo Dr. Michel, que lhe ajudava também com algum dinheiro. Mas, o incansável Francisco não queria depender de ninguém. Buscou, buscou e conseguiu um emprego de vigia na Guarda Patrimonial. Foi destacado para trabalhar numa construção na Divisa entre São Paulo e Diadema. Isso, em 1979. O DESTINO SE CUMPRINDO Com o emprego, João Francisco saiu da pensão original para morar na Rua Adolfo Gordo, Campos Elíseos, num quarto somente seu. E o destino, deitando sua mão sobre Francisco, fez cruzar seu caminho Benê, filha de Iansã, que pediu ao jovem filho de Osun força para arrumar um emprego. E, com a ajuda de Francisco, conseguiu realizar muito rapidamente seu sonho. Benê se empregou e começou a espalhar para amigos e conhecidos a história do poder de João Francisco e seus Orisás. Quando saiu desse quarto, Francisco de Osun já tinha muitos clientes. Saiu para morar na Rua Antonio Mariani, 477, Jardim Previdência, uma casa dividida com sua Mãe Meruca, que viera da Bahia. Com muitos clientes e seguidores, Francisco de Osun acabou seguindo seu próprio caminho. Já casado com Neide de Osun, mãe de seu filho carnal Thiago, morou um mês e meio na casa de Didi, na Rua do Glicério. Mas procurava incansavelmente um lugar para instalar sua Casa de Candomblé. Até que, quase por acaso, descobriu o imóvel da Rua Almirante Marques Leão, 284. Com a preciosa ajuda de seu cliente Nubio Cunha (esposo de dona Márcia Sammy Cunha), que foi o fiador, Francisco de Osun alugou a casa e começou a instalar seu Ilê. E Nubio, de tão grato a Francisco e aos Orisás, ainda presenteou o Babalorisá com metade do valor para a compra do primeiro automóvel. Preparada a Casa, Pai Francisco começou a fazer sessões do Cacique Pena Branca, que o acompanha desde bem antes da feitura de Santo e a quem Francisco cultua e respeita muito. “Não me importa que falem que nagô não deveria receber o Cacique que é um Egun. Foi ele que segurou minha Casa e não me abandona e eu não vou abandoná-lo nunca”, diz Francisco de Osun com seu jeito firme, os olhos brilhando. Foi para esta casa da Rua Almirante Marques Leão que Francisco trouxe da Bahia os assentamentos de seus Orisas. A primeira festa foi feita por sua Mãe Meruca, de quem ele fala com olhos saudosos, sempre honrando sua origem, a mão que fez sua Osun, mas sem esquecer também os conflitos com Dona Meruca. Conflitos e desentendimentos, infelizmente, gerados quando Francisco, seguindo o que havia previsto a própria Mãe Meruca, começou a ter as mãos beijadas por “Reis, Rainhas, empresários, políticos, ricos e pobres, por todos”. O ILÊ DE OSUN, O MUNDO DE FRANCISCO. E nesta casa, de onde Francisco já tentou sair, mas Osun o fez voltar, está instalado o Ilê Asé Iya Osun. Nesta casa, Francisco fundou, ainda na década de 80, a Sociedade Afro-Religiosa Ilê Asé Iya Osun, transformada no Instituto Afro-Religioso Ilê Asé Iya Osun, em 2007. Rua Almirante Marques Leão, 284, o endereço onde Francisco fez fama e tornou-se o grande Babalorisá do Bairro do Bexiga, o Pai que cuida até mesmo da Escola de Samba nascida e instalada a poucos quarteirões de seu terreiro, a campeoníssima Vai-Vai. Casa referencial para este baiano que correu mundo, dá palestras em universidades e outras instituições, participa do movimento negro, luta para firmar a cultura afro-religiosa. Luta pelo respeito à sua religião, o Candomblé, e cultua fervorosamente ensinamentos, rituais, cuidando de cada detalhe pessoalmente, desde as comidas, aos preparativos para as festas, os detalhes dos ebós, tudo, tudo com amor, extremo conhecimento e muita dedicação. Nesta casa, num momento de descanso, dos tão poucos momentos de descanso desse incansável sacerdote, Francisco de Osun olha para a cumeeira de sua Casa, entregue a Sango, olha para o trono de Osun, respira fundo e garante: “o que está traçado, traçado fica. Enfrentei tudo pelos Orisás e, deles, eu obtive a força para enfrentar tudo. Não me arrependo de nada. Minha vida e meu coração estão aqui. Eu confio, e vou confiar sempre nos Orisas e no caminho que traçam para minha vida. E até meu ultimo suspiro, vou me dedicar aos Orisás, vou me dedicar ao Candomblé e aos meus filhos carnais e de Santo, e a todos que buscam conforto e esperança na Casa de Osun”. |
biografia


MUITA DETERMINAÇÃO E OUSADIA. ASSIM, FRANCISCO DE OSUN CONSTRUIU SUA HISTÓRIA VITORIOSA.
Francisco, que na época trabalhava na Montese, empresa de equipamentos de combate a incêndio, passou a ser abiã da Casa de Mãe Meruca. Sua avó de Santo era a Isabel Soares Monteiro, a Bela de Iansã, tia e mãe de Santo de Dona Meruca. Até que resolveram recolher João Francisco, para finalmente raspar o Santo. Ia ser no dia seguinte da Festa de Osun de Seu Manoel de Neive Branco. O dia seguinte era uma segunda-feira, dia em que os baianos têm por hábito fazer a Flor do Velho, ou buburu (pipoca). Mas uma chuva sem fim lavou a cidade e João Francisco não conseguiu chegar. São estranhos os caminhos dos Orisás. Até que na festa de 21 anos de Santo de dona Meruca, a Osun de Francisco bolou e a Nanan de Meruca recolheu o jovem. 